A história da escrita começa na região situada entre os rios Tigre e Eufrates. Esta região, ao sul da Mesopotâmia, era habitada pelos Sumérios, uma civilização altamente avançada. Temos conhecimento dos seus primeiros registos, simples marcas geométricas executadas sobre pedras, que apenas serviam para contar. A maioria da população Suméria era composta por pastores e agricultores. Assim sendo, não é de admirar que as suas inscrições funcionassem como anotações de contas. Tratava-se de uma espécie de contabilidade agrícola que registava listas de sacos de cereais, de ferramentas ou de cabeças de gado.
A estas primeiras inscrições, chamamos pictogramas - símbolos que representam um objecto. São desenhos extremamente simples e estilizados.A pouco e pouco, estas marcas tornam-se mais complexas e sofisticadas. Combinando diversos pictogramas, começam agora a comunicar-se pensamentos abstractos, a exprimir-se ideias. Por exemplo, um pictograma de uma mulher seguido de um outro de uma criança, pode significar felicidade. A estes símbolos chamamos ideogramas - representam uma ideia. Em breve os pictogramas deixam de representar objectos, perdem o seu carácter realista e o seu significado remete para um contexto determinado.
Estes registos agora mais complexos começam e ser feitos sobre placas de argila fresca, com a ajuda de estiletes com pontas talhadas em bisel. Estas placas eram posteriormente cozidas ao sol ou em fornos. A este sistema, chamamos escrita “cuneiforme”, do latim cuneus, que significa cunha. Este tipo de suporte permite, não só um melhor transporte, como um armazenamento mais fácil.
No entanto, este sistema de escrita comportava algumas dificuldades. Embora existissem regras rígidas para as combinações dos diversos elementos que formavam os ideogramas - uma espécie de dicionários primitivos -, esta forma de escrita envolvia a combinação de dezenas de milhares de símbolos, sendo extremamente difícil a sua aprendizagem e tornando muito lento o processo da escrita.

Escrita fenícia
As escritas alfabéticas e o Alfabeto Fenício
Podemos considerar que uma das etapas mais decisivas para o desenvolvimento da escrita acontece quando se começam a empregar signos figurativos para reproduzir um fonema em substituição dos signos que definiam um conceito. Surgem então os fonogramas.Os símbolos representam sons da linguagem falada, deixando de traduzir objectos ou ideias. Graficamente, as suas formas sujeitam-se a um depuramento e obedecem a uma grande simplicidade.
Tomemos como exemplo o desenvolvimento da letra “A”: os Fenícios pretenderam gravar o som da letra “A”. Este som correspondia à primeira sílaba da palavra aleph, que significava boi. Pegaram no símbolo que designava o objecto e aplicaram-no ao som.
Os Acadianos, antepassados semitas dos Árabes e dos Hebreus acabaram por dominar a Mesopotâmia. A sua preponderância tornou-se tal, que cerca do ano 2000 a. C., em todo o país apenas se falava acadiano. A escrita cuneiforme tornou-se então uma verdadeira escrita, capaz de transcrever, não apenas a língua dos Acadianos, mas também a antiga língua suméria, tornada língua sagrada (tal como nos nossos dias acontece com o latim da igreja).
Esta escrita tornar-se-ia na do Reino da Babilónia, que se desenvolve a partir do ano de 1760 a.C., depois, na do reino da Assíria, ao norte.
A escrita, nascida apenas para as necessidades de uma simples contabilidade, tornou-se a pouco e pouco, com os habitantes da Mesopotâmia, um aide-mémoire, depois uma maneira de guardar os traços da língua falada; e sobretudo, uma outra maneira de a comunicar e mesmo de pensar e de se exprimir. É assim que os antigos Sumérios, os Acadianos, os Babilónios e os Sírios inventaram a correspondência, o correio e mesmo os envelopes em argila! No meio de mil e um outros prolongamentos notáveis, a escrita cuneiforme permite transcrever os hinos religiosos, as fórmulas divinatórias e aquilo que se convencionou chamar literatura.
Apesar do seu desenvolvimento, a escrita ocupa o domínio reservado a uma elite à qual confere mais poder. Escrever e ler o cuneiforme não era tarefa simples para os antigos Mesopotâmios. Esta arte pertencia àqueles que sabiam traçar os signos, conhecendo a pontuação e os diferentes sentidos segundo um contexto. Os mestres da escrita, os escribas, constituíam, tanto na Babilónia como em Assur na Assíria, uma casta aristocrática, por vezes mais poderosa que os cortesãos iletrados ou que o soberano.
As escolas dos escribas, que lhes estavam reservadas, conheciam uma disciplina severa, como o testemunham os numerosos documentos e os “deveres e exercícios” dos estudantes da Mesopotâmia que chegaram até nós. Saber ler e escrever era já um poder e uma força. Esse saber manter-se-á um privilégio.

Escrita egípcia
No Egipto
Ao mesmo tempo que na Mesopotâmia se desenvolvia a escrita cuneiforme, desenvolvia-se também nas margens do Nilo a escrita hieroglífica dos Egípcios, uma verdadeira escrita, cujos signos traduziam de uma forma muito aproximada a língua falada. É uma escrita complexa, com símbolos gráficos riquíssimos, utilizando simultaneamente pictogramas, ideogramas e fonogramas. Eram ainda utilizados outros signos específicos devidamente codificados que davam indicações ao leitor para ele se situar num ou noutro tipo de escrita - casos havia em que eram utilizados conjuntamente pictogramas e/ou ideogramas e fonogramas. Eram ainda empregues certos artifícios (determinativos) para indicar qual a orientação da leitura que habitualmente era feita no sentido da direita para a esquerda - eram colocadas cabeças de pássaros e cabeças humanas e o leitor devia orientar a sua leitura até chegar ao bico ou à cabeça.Para os Egípcios, a escrita possuía um carácter sagrado - o deus Tho tê-la-ia inventado e oferecido aos humanos. A palavra hieróglifo significa precisamente “escrita dos deuses”. Este dom divino conferia aos escribas um poder também ele divino, que lhes atribuía um lugar de grande supremacia social, concorrente com o próprio poder dos faraós.
Embora utilizassem a pedra e o couro para a gravação dos hieróglifos, sabemos que os Egípcios escreviam sobretudo sobre papiro. Podemos considerar este material o antecessor do papel. O papiro é uma planta que cresce nas margens do Nilo.
O interior do seu caule fibroso podia ser cortado em finas lâminas que eram posteriormente coladas umas às outras (com uma cola à base de amido), formando folhas que podiam atingir os quarenta metros de comprimento, sendo por isso mesmo enroladas sobre si próprias.
Este novo suporte flexível e resistente, com um aspecto muito semelhante ao do tecido, permitindo por isso um fácil manuseamento, veio revolucionar o mundo da escrita.
Operam-se a pouco e pouco significativas mudanças na forma de escrita. O sistema de hieróglifos era demasiado complexo e os seus símbolos exigiam desenhos minuciosos e complicados que tornavam muito lentos os registos.
Na tentativa de obviar o processo da escrita, nasce simultaneamente à escrita hieroglífica uma escrita chamada cursiva, precisamente porque corria ao longo do rolo de papiro. Sendo ainda uma escrita hieroglífica com o emprego de fonogramas, ideogramas e determinativos. Os seus caracteres eram mais simples e surgiam ligados entre si. Esta escrita possui ainda o seu carácter sagrado e por isso mesmo se chama Hierática (a palavra grega Hieros, significa sagrado).
Com o devir dos tempos esta escrita sofre ainda mais simplificações: os caracteres que a compunham eram de mais rápida execução, apresentando-se ligaturados e permitindo uma maior fluidez de escrita. A este tipo de escrita que se torna a mais utilizada no Egipto, chama-se Demótica ou popular.

Evolução dos alfabetos ocidentais
NA GRÉCIA
Existem muitas teorias acerca das origens do alfabeto. Mas independentemente da verdadeira, a sua invenção foi um marco de grande magnitude no desenvolvimento da civilização. Um alfabeto é um sistema de escrita com um único signo visual (letra) para cada som de vogal ou consoante (embora não existissem vogais nos primeiros alfabetos) os quais podem ser combinados de maneira a formarem unidades visuais (palavras) que representam a língua falada. Cerca do ano 1500 a. C., o alfabeto superou todos os outros sistemas de escrita e sobreviveu intacto através de vários capítulos tumultuosos da história do mundo ocidental.
Através destas relações de negócios, os seus parceiros foram gradualmente expostos ao seu sistema alfabético de escrita e, cerca do ano de 800 a. C., a sua influência penetrou na Grécia ocidental. Nessa altura, coexistiam na Grécia vários alfabetos e dialectos locais.
Mas dois alfabetos principais emergiram - o jónico, na parte oriental do país e o caldaico, na parte ocidental. Existiam muitas semelhanças entre o alfabeto fenício e os primeiros alfabetos gregos - a ordem e os nomes das letras eram os mesmos, bem como o sentido da leitura que era da direita para a esquerda (ou algumas vezes alternando). Cerca do ano 500 a. C., o sentido da leitura inverteu-se de forma que a leitura era feita da esquerda para a direita. No ano de 403 a. C., o alfabeto jónico foi oficialmente adoptado em Atenas como sendo o alfabeto grego clássico. Contudo, foi o alfabeto caldaico aquele que foi mais influenciado pelos Fenícios e aquele que desempenhou um papel mais significativo no desenvolvimento do alfabeto Romano. Tornou-se no modelo para todos os subsequentes alfabetos da Europa do Ocidente.
Os Fenícios utilizaram a sua localização na costa oriental mediterrânica para as incursões marítimas como um meio de exportarem as suas mercadorias para outros países da região. Cerca do ano de 675 a. C. desenvolveram-se relações entre Gregos e Etruscos, povo que se fixara na costa ocidental de Itália depois da sua migração da Ásia Menor. Foi devido a este relacionamento que a influência do alfabeto grego caldaico chegou a Itália e crê-se que o alfabeto etrusco deriva do alfabeto caldaico.
Os Etruscos permaneceram dominantes em Itália cerca de 250 anos, alcançando o seu máximo poder no ano de 500 a.C.. Perto de cem anos depois, as suas conquistas perderam-se face ao crescente poder de Roma.
O legado que os Etruscos deixaram aos Romanos foi considerável. Foi através deles que os Romanos adquiriram grande parte dos seus conhecimentos em arquitectura, leis, sistemas viários e outros aparatos das sociedades civilizadas. O alfabeto etrusco foi a base do alfabeto romano, tal como ainda hoje é utilizado. Depois de algumas modificações - os Romanos mudaram algumas letras, juntaram outras e omitiram algumas - restou um alfabeto com 23 letras, que é igual ao alfabeto romano usado hoje em dia, excluindo a letra J, U e W que foram acrescentados na Idade Média.

A escrita romana
O ALFABETO ROMANO
Tal como os Gregos haviam adaptado o alfabeto fenício, assim os Romanos se apropriaram do alfabeto grego, introduzindo apenas algumas alterações. Se para os Gregos a escrita funcionava como um meio de transmissão e preservação do conhecimento, podemos dizer que, para os Romanos, a escrita era um importante factor de preservação do poder. Por voltado ano de 500 d. C., os Romanos começaram a expansão do seu império através da invasão e colonização, impondo o seu alfabeto escrito nas nações por eles conquistadas.
As letras do alfabeto Romano tornaram-se um sistema estabelecido de signos que eram percebidos em muitas partes da Europa e da Ásia Menor - uma linguagem escrita “internacional”.
Em Roma, nos primórdios do Império, eram sobretudo utilizadas as letras capitais: letras maiúsculas, construídas a partir de formas geométricas simples (quadrado, círculo e triângulo), empregues nas inscrições sobre pedra e às quais se chamou quadrata. O desenho deste tipo de letra mantém-se quase intacto até aos nossos dias, originando aquilo a que hoje chamamos caixas altas ou maiúsculas.
Posteriormente, e mais uma vez sob influência grega, começa a empregar-se uma outra forma de letra mais informal, utilizada em documentos correntes do dia-a-dia, de menor importância, escritos sobre papiro ou placas de cera: uma escrita cursiva, à qual se chamou uncial, com um aspecto semelhante ao itálico e que mais tarde, durante a Idade Média, daria origem às letras minúsculas. O desenho destas letras, destinado a um tipo de escrita mais rápida, apresentava um aspecto mais arredondado e ostentava pequenos traços ascendentes e descendentes.
A gravação da escrita sobre um suporte como a pedra, condicionava o próprio desenho das letras, baseado em linhas rectas. Para além disso, eram necessários minuciosos cálculos prévios. O tamanho das letras e a distribuição das palavras tinham que ser rigorosamente definidos. Havia, portanto, necessidade de “calibrar” o texto, antes de partir para a sua gravação. Primeiro, as letras eram desenhadas com pincel e tinta sobre a pedra e só depois eram gravadas com um cinzel.

O SCRIPTORIUM
Com o declínio do império Romano surgem na Europa vários estilos de escritas nacionais. No entanto, numa tentativa de reunificação do Império, emerge a figura de Carlos Magno (742-814) assumindo um papel unificador da escrita. Através de equipas de calígrafos monásticos, institui a escrita carolíngia como aquela que deveria figurar nos seus documentos oficiais. Esta escrita carolíngia permanece até ao século XII, data em que ocorre um outro estilo gráfico, o Gótico, de influência alemã.
Diferindo dos escribas da Mesopotâmia ou do antigo Egipto, os Monges copistas da Idade Média não são nem criadores, nem homens do poder: eles escrevem mas não inventam. A sua criação situa-se num outro plano: eles vão elaborar, sobretudo a partir do reinado de Carlos Magno, uma arte deslumbrante, a caligrafia. Esta bela escrita manuscrita (feita à mão) ornamentada com maravilhosas iluminuras, dá todo o valor aos nossos primeiros livros, precisamente chamados manuscritos.
O trabalho dos copistas era essencialmente o da transcrição de textos litúrgicos e da Bíblia, embora se executassem também as traduções dos textos clássicos gregos. É este laborioso trabalho dos copistas que permite que chegue até aos nossos dias o conhecimento de uma cultura tão longínqua como a grega.
Os antigos escribas escreviam sobre rolos de papiro, chamados volumen em latim. Estes volumen ofereciam bastantes inconvenientes: o papiro era muito caro e frágil e só se podia utilizar de um dos lados
A generalização de um novo suporte, o pergaminho, vai modificar completamente a arte de escrever e de ler. Esta invenção parece surgir em Pergamo, na Ásia Menor. A palavra pergaminho vem do grego “pergamênê”, que significa “pele de pérgamo”. Durante o século XI antes da nossa era, o Egipto recusava-se a fornecer a Pérgamo, sua rival, os indispensáveis papiros. Por isso, os escribas da Ásia Menor viram-se obrigados a recorrer a um outro material: o couro. Adquiriram assim a invenção do pergaminho.
O pergaminho é, geralmente, uma pele de carneiro, de vitela ou de cabra, mas a pele de gazela, de antílope ou mesmo de avestruz foram utilizadas como matéria-prima. As peles de carneiro e de vitela tinham no entanto a vantagem não negligenciável de poderem suportar a escrita sobre as duas faces. O velino é um pergaminho de qualidade superior, obtido através do tratamento de peles de animais muito jovens. O seu nome vem do francês antigo “veel”, vitela. A sua principal qualidade era a de não “beber” a tinta e de conservar melhor as cores originais, foi, sem dúvida, por estas razões que as mais belas iluminuras foram executadas sobre velino. O incómodo papiro cede o lugar às folhas de pergaminho, ligadas à maneira dos “codex” romanos: o livro tinha nascido.
O aparecimento do pergaminho trouxe progressos decisivos: por um lado, permitia a utilização da pena de ave, que oferecia possibilidades infinitamente mais variadas que o grosseiro pincel de cana; e, por outro lado, podendo as folhas ser dobradas e cosidas atingimos a generalização dos “codex”, antepassados dos nossos livros, constituídos por folhas sobrepostas umas sobre as outras e encadernadas.
Era no scriptorium (oficinas dos conventos) que os monges copistas desenvolviam a sua lenta e laboriosa tarefa de copiar livro sobre livro, segundo regras rígidas de divisão de trabalho. Para além da escrita, os monges tinham ainda a incumbência do tratamento e preparação do pergaminho, da decoração das páginas com iluminuras e da encadernação dos manuscritos. Antes de registarem qualquer texto, os monges marcavam sobre a folha as marcas das linhas sobre as quais escreveriam. Se este tipo de trabalho podia ser feito por pessoas menos especializadas, o mesmo não acontecia, por exemplo, com as ilustrações ou com as iluminuras, trabalhos de grande riqueza plástica que obedeciam a uma mestria exemplar.
Sem comentários:
Enviar um comentário